Na sequência, a guerra de Estados Unidos e Israel contra o Irã fez disparar os preços da energia, com um impacto generalizado na produção de alimentos, salienta Sébastien Abis, especialista em sistemas agrícolas e alimentares e pesquisador associado do Instituto de Relações Internacionais e Estratégicas (IRIS), em Paris.
"Menos petróleo e menos gás são um problema para a agricultura e causam, naturalmente, um aumento nos custos de produção. Cada alta do valor da energia tem repercussões na produção agrícola e em toda a cadeia alimentar, portanto contribuirá para um aumento dos preços para o consumidor, embora essa transferência para o preço final nem sempre seja imediata", explica.
"Devemos temer maiores efeitos sobre a segurança alimentar no próximo ano, principalmente na África e na Ásia, inclusive porque há um fenômeno El Niño se intensificando. Ou seja, temos neste momento uma combinação de choques que precisa ser observada de perto", frisa o especialista.
A empresa Data Essentials criou um índice de preços do hambúrguer. Segundo seus cálculos, o preço médio aumentou 14% desde 2023 nos Estados Unidos, enquanto o da carne bovina no mesmo período subiu mais de 30% - um reflexo da redução dos rebanhos no país, em parte devido ao aumento das secas.
Alguns profissionais aceitam diminuir as margens de lucro para não assustar os seus clientes. Outros distribuem a alta dos preços por todos os itens do cardápio, como batatas fritas ou bebidas. E muitos fazem as duas coisas.
O hambúrguer, consumido nos quatro cantos do planeta, reflete essas tensões em vários outros países. Na Europa, uma a cada 10 refeições feitas fora de casa é hambúrguer, afirma Maria Bertoch, da consultoria de estudos de mercado de consumo e fast food Circana. Mas, diante da subida dos preços e da ampliação da oferta de outras alternativas mais baratas, como frango frito, as redes do tradicional sanduíche são obrigadas a se adaptar.
"As marcas otimizam a oferta de produtos, aumentando as opções com frango e vegetarianas, em que elas podem ter maior lucratividade. Também propõem ofertas menores, ao mesmo tempo em que continuam a tentar limitar o aumento do preço daqueles produtos 'carro-chefe', que atraem os clientes e geram tráfego nos restaurantes", indica.
Para os independentes, a margem de manobra é mais limitada. O espanhol Madison Smash Burger acaba de conquistar o terceiro lugar no concurso europeu The Champions Burger, disputado em Paris. Mas manter o preço do sanduíche básico a € 13 está cada vez mais difícil, reconhece o cofundador da marca, Christopher Fenelon:
"Todos os custos estão aumentando: carne, pão, realmente tudo está mais caro. Precisamos fazer esforços constantes para nos adaptar", diz Fenelon. "Nosso negócio está sofrendo com uma situação internacional, mas não podemos aumentar o preço do hambúrguer para € 15 ou € 16, porque ninguém compraria. Nos resta ajustar as margens e apertar o cinto."
As entrevistas ouvidas neste podcast foram feitas ao programa de economia Eco d'Ici et d'ailleurs, da RFI em francês.